O primeiro quarto
Martha Medeiros
Deus existe. Abençoado apartamento de três quartos. Você mal acredita no sonho que conseguiu realizar. O sonho do quarto próprio.
Poucas são as crianças que desde cedo têm um quarto só para elas. Na maioria das famílias, crianças compartilham o quarto com o irmão, o que, diga-se, é muito seguro, principalmente na hora em que se apaga a luz e os monstros da nossa imaginação saem de trás da cortina: é bom não estar sozinho nesta hora.
Mas crianças crescem, e sua necessidade de isolamento também. Chega um momento em que não há graça nenhuma em repartir o guarda-roupa: é injusto você ficar com uma gaveta a menos só porque utiliza cabides a mais. Seu irmão cola na parede o pôster da Cristina Aguilera e não negocia, então você é obrigada a revidar com o pôster do Linkin Park e o quarto fica parecendo um estúdio de rádio pirata. Os amigos dele sentam na sua cama, pegam suas coisas, colocam aqueles tênis nojentos em cima da sua colcha, e você não pode erguer um muro para dividir o território porque na sua casa o regime é democrático. Então você segura a onda, nada a fazer, a não ser rezar antes de dormir para pedir que todos tenham muita saúde e paz, mas, se não for abuso, pô, Senhor, dê uma forcinha para que a gente consiga mudar para um apartamento maior.
Deus existe. Abençoado apartamento de três dormitórios. Você mal acredita no que conseguiu realizar: o sonho do quarto próprio.
O primeiro quarto é como se fosse nosso primeiro lar. Tudo o que entrar ali – se o orçamento permitir e sua mãe for camarada – terá seu estilo, seu gosto. Você e que manda: pode escancarar a janela, ser a anfitriã de suas colegas de aula, pode fechar a porta para escutar seu som, escrever mil páginas de poemas sem ter alguém espiando sobre seu ombro, pode à noite deixar acesa uma luzinha, pode dançar sozinha, pode dormir só de calcinha. Um lugar para exercer algo sobre o qual você já ouviu comentários entusiasmantes, porem nunca havia experimentado: liberdade.
Seu quarto é o seu refúgio dentro da sua própria casa, é seu bunker, seu direito ao recolhimento, não o tempo inteiro, mas quando for necessário – e tantas vezes é. Um lugar para chorar. Poucos são os que têm privacidade para ficar triste. Neste mundo de vigília e patrulha constantes, é um luxo poder sofrer sem ter ninguém nos observando.
O primeiro quarto é nosso primeiro palco – e é bastidor ao mesmo tempo. É onde ensaiamos a vida que encenaremos mais adiante. No quarto testamos vários figurinos, nos maquiamos, criamos novos penteados, cantamos, inventamos coreografias, escalamos nós mesmos para o papel principal, decidimos a marcação, e podemos até enxergar a plateia nos aplaudindo de pé. Nosso quarto é nossa fronteira aberta, nossa zona de travessia, realidade e imaginação convivendo em paz, livres de diagnósticos rígidos: ninguém aqui é louco, apenas artista.
Uma artista, claro, que precisa sentar à mesa para jantar com a família, que precisa fazer os deveres da escola, que precisa juntar a toalha do chão e arrumar a própria cama – nada de moleza, mocinha. Mas a mocinha, nas horas vagas, tem um canto todo seu, uns poucos metros quadrados para sonhar sem que lhe chamem a atenção, sem que lhe interrompam com perguntas. E o melhor de tudo: por trás da cortina não há mais bicho papão. Solidão, seja muito bem-vinda.
Domingo, 19 de setembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.